Descubra como um pequeno detalhe gramatical carrega grandes nuances culturais e emocionais entre dois idiomas apaixonantes.

 

“AMO-TE” OU “TE AMO” .pdf de Lisbeth Regalrexnord

“Amo-te” ou “Te amo”? Como a colocação dos pronomes revela diferenças culturais e afetivas entre o espanhol e o português.

2 ideias sobre ““Amo-te” ou “Te amo”? Como a colocação dos pronomes revela diferenças culturais e afetivas entre o espanhol e o português.

  • 27/11/2025 em 07:27
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    Bom dia, professora Lisbeth:

    A senhora disse que no espanhol não temos ênclise (e é considerada um erro!) para objeto direto ou indireto, mas discordo com isso. Talvez tenhamos perdido a nossa ênclise na fala do dia a dia há muito tempo, mas ainda é utilizado, por exemplo, em textos literários e até científicos (Nueva Gramática de la Lengua Española, RAE, 16.7e). Também não é verdade que não exista nenhuma variante do espanhol onde a ênclise seja utilizada, pois segundo a RAE, existem zonas rurais (como o vale central da Costa Rica, Ibid., 27.8c) onde ainda se usa.

    Sei que em Portugal é comum a ênclise e formas como “amo-te”, mas a senhora diria que a situação no Brasil ainda é bastante “melhor” do que no espanhol e por isso disse que no espanhol não temos? Ou, tem alguma referência onde a RAE ou outra autoridade similar afirme que a ênclise é incorreta (ao invés de incomum) no espanhol? Porque a mesma RAE disse na entrada “Uso y posición de los pronombres átonos (I)” que a ênclise, apesar de ser incomum, não pode considerar-se incorreta: “Es este un uso que en ningún caso puede considerarse incorrecto, pero que resulta arcaizante”. Esse texto também fala que a ênclise é usada na Galiza, embora seja pela influência do galego.

    De qualquer jeito, gostei bastante do material. Muito informativo e bem estruturado. Gostaria de perguntar duas coisinhas mais, que não tem necessariamente a ver com o material atual, mas a propósito daquilo das “maneiras culturais” e os “contextos” dos que a senhora fala na introdução: 
    – O que levou a perda da ênclise no espanhol (e no Brasil)? Ou, talvez seja mais interessante entender, por que a ênclise ainda é forte em Portugal?
    – Quando/como surgiu a regra de acrescentar um N a alguns pronomes na ênclise nos casos em que o verbo acaba em som nasal? (“tragam-na” e não “tragam-a”). Em algum momento da história o que hoje seria considerado um erro (“tragam-a”) foi considerado correto? Fiquei com a dúvida, porque no espanhol de hoje tiramos o S dos verbos no imperativo da 1ra e 2da pessoa do plural (“sentémonos” e não “sentémosnos”), mas segundo a RAE nos séculos XV e XVI ainda era válido (Ibid., 4.4j).

    Obrigado!

  • 28/12/2025 em 22:40
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    Bom noite, Jesús:

    Muito obrigada pela sua leitura atenta e pelo comentário tão bem fundamentado. É sempre enriquecedor quando um texto desperta reflexões e abre espaço para um diálogo mais profundo sobre a língua e sua história.

    Você tem razão ao destacar que a ênclise no espanhol não desapareceu por completo. A Nueva Gramática de la Lengua Española da RAE reconhece que, embora hoje seja um uso pouco frequente e de caráter arcaizante, ainda pode aparecer em registros literários ou científicos e em algumas variedades regionais, como no vale central da Costa Rica ou na Galícia, neste último caso sob influência do galego. Nesse sentido, não se trata de uma forma “incorreta” em termos absolutos, mas de um uso marcado, afastado da norma culta geral do espanhol contemporâneo e, por isso, pouco natural na maioria dos contextos atuais.

    Convém precisar que, no espanhol moderno, a ênclise existe sim, mas está estritamente limitada a contextos muito específicos: o imperativo afirmativo, o gerúndio e o infinitivo (hazlo, viéndolo, amarte). Fora desses casos, a próclise é obrigatória diante de verbos conjugados em tempos simples (te amo, me dijo), e não há alternância possível. Por isso, construções como amo-te, embora documentadas historicamente ou em textos arcaizantes, não são aceitas como norma geral nem soam naturais no uso contemporâneo da língua.

    Diferentemente do português, sobretudo no português europeu, onde a ênclise se manteve como um traço normativo e estilístico forte, no espanhol a posição dos pronomes átonos se fixou de maneira muito mais rígida. No Brasil, por sua vez, a oralidade favoreceu amplamente a próclise e outras estratégias (como o uso de pronomes de sujeito), ainda que a ênclise continue presente como parte da norma ensinada em registros mais formais.

    Quando afirmei no artigo que “não temos ênclise em espanhol”, minha intenção foi deliberadamente pedagógica: mostrar aos estudantes brasileiros que, diferentemente do português, o espanhol moderno não admite a alternância sistemática entre próclise e ênclise com verbos conjugados. A posição do pronome é, na prática, fixa antes do verbo, e por isso estruturas como amo-te não fazem parte do uso corrente. Ainda assim, é muito pertinente, como você bem lembrou recordar que a tradição literária e algumas variedades regionais conservam esse traço de forma residual.

    Quanto às suas perguntas adicionais:

    1. Por que a ênclise se perdeu no espanhol, mas se manteve em Portugal?

    No espanhol medieval, a ênclise era comum (díjome), mas ao longo do tempo houve uma reorganização sintática que levou à fixação da próclise como padrão. Esse processo está ligado à consolidação de uma ordem sintática mais rígida e à perda do antigo sistema de “segunda posição” dos pronomes. Já o português europeu preservou a ênclise como um traço normativo, reforçado pela tradição literária e gramatical clássica, o que explica sua vitalidade até hoje.

    2. Sobre o “n” em formas como tragam-na:

    Essa regra tem origem fonética e prosódica: o n atua como elemento de ligação entre o verbo terminado em som nasal e o pronome iniciado por vogal, evitando sequências difíceis ou pouco eufônicas. Historicamente, formas como tragam-a existiram e foram usadas, mas acabaram sendo substituídas e normatizadas como tragam-na. Esse tipo de ajuste mostra como a língua evolui buscando equilíbrio entre norma, pronúncia e fluidez. Algo semelhante ocorre no espanhol com a perda do s em formas como sentémonos (antes sentémosnos), mudança que também responde a processos fonéticos e evolutivos documentados pela RAE.

    Mais uma vez, agradeço muito a sua leitura cuidadosa, as observações tão pertinentes e o diálogo respeitoso e enriquecedor. Comentários como o seu contribuem enormemente para aprofundar a reflexão sobre a língua e a sua história.

    Foi um prazer trocar ideias com você. Espero que continuemos esse diálogo em outras oportunidades.

    Um cordial abraço,
    Lisbeth

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